A trágica história de Inés de Castro, cantada pelo grupo musical Milladoiro

'Inés', uma bela canção sobre uma galega que se tornou rainha de Portugal após a sua morte

EspEngGal Sáb 30·8·2025 · 18:55 0

A Idade Média é uma parte do passado em que a história se mistura frequentemente com lendas, por vezes com um ar muito sinistro.

Esta história remete-nos para a Península Ibérica na primeira metade do século XIV, concretamente no ano de Nosso Senhor de 1325. O então rei de Castela, Afonso XI, casou por procuração com a nobre castelhana Constança Manuel de Vilhena, que tinha então apenas nove anos. Devido à tenra idade da jovem, o casamento nunca foi consumado, mas Constança foi considerada rainha consorte de Castela durante dois anos, até que Afonso a repudiou em 1327, depois de se ter apaixonado pela sua prima, a Infanta Maria (então com catorze anos), filha mais velha do rei D. Afonso IV de Portugal e de Beatriz de Castela.

Pintura "Assassinato de Dona Inéss de Castro" do pintor português Columbano Bordalo Pinheiro (1857–1929).

Não foi esse o fim da infeliz Constança. Destituída do título de rainha consorte, a nobre castelhana foi prometida em casamento em 1335 ao príncipe Pedro, futuro rei D. Pedro I de Portugal. O casamento por procuração realizou-se no ano seguinte, com prévia dispensa papal, dado que os noivos eram primos. No entanto, estalou uma guerra entre Portugal e Castela, que se prolongou até 1339, pelo que Constança só conseguiu chegar a Portugal em 1340. Quando a nobre castelhana chegou ao seu novo reino, trouxe consigo uma comitiva que incluía a sua prima Inês de Castro, uma nobre galega. Diz-se que o príncipe D. Pedro se apaixonou por Inês assim que a viu. Constança morreu em 1349 após o parto, mas nessa altura D. Pedro e Inês já eram amantes.

A Fonte das Lágrimas, em Coimbra (Foto: Carlos Luis M C da Cruz).

Após a morte de Constança, a relação entre Pedro e Inês tornou-se mais evidente. Em 1354, os dois casaram-se em segredo, depois de terem tido vários filhos. A relação entre Pedro e Inês perturbou a corte portuguesa. O rei Afonso IV e vários dos seus nobres conspiraram para se verem livres dela. Inês foi assassinada na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, a 7 de janeiro de 1355, aproveitando-se do facto de o príncipe D. Pedro estar fora, a caçar. Reza a lenda que as lágrimas vertidas por Inês no rio Mondego, em Coimbra, deram origem à Fonte das Lágrimas, que ainda hoje se encontra nas margens daquele rio. O assassinato de Inês irritou o marido: o infante D. Pedro pegou em armas contra o pai, com o apoio da Casa de Castro, e eclodiu em Portugal uma guerra civil que devastou o país durante dois anos.

Pintura "A Coroação de Inês de Castro em 1361" do pintor francês Pierre Charles Comte (1823–1895).

A 28 de maio de 1357, o rei Afonso IV de Portugal morreu em Lisboa. Uma vez coroado rei, D. Pedro desencadeou a sua vingança, o que deu origem a uma história verdadeiramente macabra. Reza a lenda que o novo rei de Portugal ordenou que o corpo de Inês fosse exumado e colocado no trono, obrigando a corte — que tanto amaldiçoara o amor entre os dois — a homenagear a falecida, razão pela qual se costuma dizer que Inês de Castro foi rainha após a sua morte. D. Pedro iniciou uma perseguição aos instigadores do assassinato de Inês, capturando dois deles e ordenando que lhes arrancassem o coração. A nobre galega foi sepultada num belo sarcófago que se conserva no Mosteiro de Alcobaça. D. Pedro I de Portugal foi sepultado no mesmo local após a sua morte, em 1367.

O túmulo de Inês de Castro no Mosteiro de Alcobaza, Portugal (Foto: Waugsberg).

Em 2008, o grupo de música tradicional galega Milladoiro (a minha banda favorita) lançou um excelente álbum intitulado "A quinta das lágrimas". A terceira faixa deste álbum é em português, intitulada "Inés", e é dedicada a Inés de Castro. Pode ouvi-la aqui:

Eis a letra:

No mar tanta tormenta e tanto dano,
tantas vezes a morte apercebida,
na terra tanta guerra, tanto engano,
tanta necessidade avorrecida.

Onde pode acolher-se um fraco humano?
Onde terá segura a curta vida?
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
contra um bicho da terra tão pequeno.

Tu, só tu, puro amor, com força crua,
que os corações humanos tanto obriga,
deste causa à molesta morte sua
como se fora pérfida inimiga.

Se dizem, fero amor, que a sede tua
nem com lágrimas tristes se mitiga,
é porque queres, áspero e tirano,
tuas aras banhar em sangue humano.

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
de teus anos colhendo doce fruito,
naquele engano da alma, ledo e cego,
que a fortuna não deixa durar muito

Nos saudosos campos do Mondego
de teus fermosos olhos nunca enxuito,
aos montes insinando e às ervinhas,
o nome que no peito escrito tinhas.

Aconteceu da mísera e mesquinha,
que despois de morta foi Rainha.

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Foto principal: Google Arts & Culture. O túmulo de Inés de Castro no Mosteiro de Alcobaza, Portugal.

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